sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Diário de um Engenheiro: Intoxicação por Produtos de Limpeza em Trabalhadores Domésticos

        A segurança de um produto é influenciada pelas suas características físicas, pela restrição de uso e pelo risco associado ao produto. Estes fatores devem ser reconhecidos pelo usuário. Com os produtos de uso industrial é possível fazer um treinamento dos indivíduos que irão manipulá-los, o que não ocorre com os produtos de uso doméstico. Assim, a população deve ser lembrada frequentemente de que é necessário ler e seguir as instruções do fabricante, pois o uso cotidiano de produtos que apresentem risco gera familiaridade com o perigo, determinando que as advertências sejam ignoradas.

        Diversos estudos mostram que desinfetantes, alvejantes, polidores de metais detergentes, sabões domésticos, entre outros, são nocivos à nossa saúde, é o que revela a revisão bibliográfica sobre intoxicações exógenas, conduzida por Cristiane S. Rezende e Waldemir W. Rezende, do Pronto Socorro do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

       Detergentes e sabões domésticos são surfactantes aniônicos. Os compostos mais comumente utilizados são os alquil sulfatos e compostos sulfonados como: Lauril sulfato de sódio, alquilbenzeno sulfonato de sódio, dodecil benzeno sulfonato de sódio, estearato de sódio, oleato de sódio. Caracterizados por uma toxicidade moderada, causam irritação da pele, por tanto é recomendado o uso de luvas de látex. 
       
       Polidores de metais, utilizados nos processos de abrilhantamento de utensílios em alumínio, aço inoxidável, prata, ouro, cobre, estanho, etc., de modo a remover sujeira, gordura, manchas ou o óxido metálico. Sua composição compreende ácido oxálico e óleo de pinho, sendo esses irritantes para a pele e as mucosas, provoca uma hipocalcemia por reação com o cálcio iônico e formação de cristais insolúveis de oxalato de cálcio em pH normal. No caso de inalação de vapores pode-se notar uma insuficiência respiratória e, até mesmo, uma pneumonite química.

       Desinfetantes em produtos de limpeza são surfactantes catiônicos (cloreto de benzalcônio, cloreto de benzetônio, cloreto de cetilpiridinio , cetrimida, cloreto de dequalínio) caracterizados por uma alta toxicidade. A inalação deles pode causar danos sobre a mucosa e cílios do trato respiratório. Derivados fenólicos também são empregados como desinfetantes, germicidas e bactericidas, como a creolina. São tóxicos protoplasmáticos, ou seja, agem diretamente sobre as células e destroem a arquitetura do tecido. Podem causar lesões irritativas da pele, zonas anestésicas por destruição das terminações nervosas. O contato prolongado com a pele pode produzir necrose extensa e graves manifestações sistêmicas. O aconselhado é utilização de luvas nitrílicas para que não haja contato com o produto. Os vapores estimulam o centro respiratório, podendo ser causa de alcalose respiratória, seguida logo por acidose. 
        Soda cáustica ou hidróxido de sódio é um produto cáustico que pode causar queimaduras graves, ardência e forte irritação na pele e mucosas. Em casos graves pode ocorrer necrose liquefativa (saponificação de gorduras e solubilização das proteínas). Morte celular pode ocorrer pela emulsificação e ruptura das membranas celulares. A inalação causa intensa irritação respiratória, tosse, dispnéia, espasmo de glote, aumento de secreções, edema, broncoespasmo e cianose. Descamação do epitélio nasal, risco de infecções, facilitação das complicações pulmonares. Além de dor de cabeça, tontura, fraqueza, hipotensão e taquicardia.

       Deve-se ressaltar, também, que existem associações que potencializam os riscos:
· HIPOCLORITO COM AMÔNIA: produzem fumos de cloramina e dicloramina, que em contato com mucosas formam ácido hidrocloroso e oxigênio nascente, que são potentes agentes oxidantes e causam lesão celular.
· HIPOCLORITO COM SOLUÇÕES ÁCIDAS: liberam cloro gasoso e ácido hipocloroso que são absorvidos pelas mucosas, determinando dano local e sistêmico.

MEDIDAS DE PREVENÇÃO

        Só use produtos que tenham no rótulo, de forma clara, para o que ele serve. Essa indicação deve estar na parte da frente da embalagem, junto ao nome do produto. Por exemplo: sabão em pó, desinfetante, amaciante, detergente, inseticida. Os rótulos devem conter as seguintes informações:
· prazo de validade;
· nome do fabricante, e responsável técnico;
· registro no Ministério da Saúde (os detergentes e amaciantes de roupa são dispensados desse registro. Os que não tiverem esse registro devem citar a resolução da ANVISA 336/99);
· a finalidade do produto;
· quantidade;
· modo de usar;
· composição química detalhada;
· ingrediente químico ativo;
· forma de conservação e armazenamento;
· advertência para não reutilização da embalagem;
· precauções;
· classe toxicológica, se houver (classificação que representa o risco potencial para os seres humanos);
· instruções sobre o que fazer em caso de acidentes.

        Outro grave problema são os produtos vendidos em embalagens clandestinas e, portanto, inadequadas. São os produtos, em geral, comercializados por ambulantes em caminhões. Os recipientes são embalagens reaproveitadas de produtos de limpeza já descartados ou mesmo de refrigerantes. Não possuem registro do Ministério da Saúde, sua formulação é inadequada e não possuem rótulo, portanto, não apresentam as informações necessárias sobre sua composição e risco o que, dentre outros problemas, dificulta o socorro no caso de intoxicação.

EM CASO DE INTOXICAÇÃO

         Se houver intoxicação por ingestão de líquidos não dê água ou leite à vítima e não provoque vômito. Isto pode fazer com que a pessoa seja queimada internamente duas vezes.

        Leve a vítima imediatamente ao pronto socorro mais próximo levando a embalagem que causou a intoxicação.


Verônica Tredinnick
Graduanda do curso de Engenharia Biotecnológica 


Referências bibliográficas

PRESGRAVE, R. F. et al. Legislação sanitária brasileira e a comunicação de risco de produtos de limpeza doméstico. Revista Brasileira de Toxicologia, v. 21, n. 2, p. 27-33, 2009. Disponível em:<http://www.sbtox.org.br/Revista_SBTox/V22[1-2]2009/V22%20n%201-2%20Pag%2027-33.pdf>. Acesso em: 24 set. 2012.

REZENDE, C. S.; REZENDE, W. W. Intoxicações exógenas. Editora Moreira jr. Disponível em: <http://www.moreirajr.com.br/revistas.asp?id_materia=1806& fase=imprime>. Acesso em: 24 set. 2012. 

CONSUMIDOR CONSCIENTE. São Paulo, Fundação Procon-SP, n. 6, a. 2, 2008. Disponível em: <http://www.procon.sp.gov.br/pdf/consumidorconsciente06.pdf>. Acesso em: 24 set. 2012.

SOUZA-MACHADO, A. et al. Efeitos tóxicos atribuídos ao cloreto de benzalcônio sobre a mucosa nasal e atividade mucocilia. Rev. bras. alerg. imunopatol., v. 31, n. 1, 2008. Disponível em: <http://www.asbai.org.br/revistas/vol311/ART_1-08-Efeitos_toxicos.pdf>. Acesso em: 24 set. 2012. 

HADDAD, C. M. S. L. D. Intoxicação por produtos de uso doméstico. Toxicologia. Disponível em: <http://ltc.nutes.ufrj.br/toxicologia/modVII.htm>. Acesso em: 24 set. 2012.

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