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sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Quando tomba o guardião

A palavra câncer se aplica a mais de uma centena de doenças – algumas que evoluem rapidamente, outras que só se manifestam depois de décadas; algumas altamente curáveis, outras incontornavelmente fatais –, todas com uma característica em comum: a proliferação desenfreada das células. Com base em resultados internacionais e dados obtidos em seu laboratório na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o bioquímico Jerson Lima da Silva formulou a hipótese de que ao menos parte dos casos de câncer seja desencadeada pelo mesmo mecanismo molecular que está por trás da doença de Creutzfeldt-Jakob, a versão humana do mal da vaca louca, que causa a morte celular precoce e deixa o cérebro poroso feito uma esponja. 

De acordo com essa visão, defendida por Silva e seus colaboradores em um artigo publicado em junho na Bioscience Reports, tanto no câncer, marcado pela perpetuação da vida das células, como na doença de Creutzfeldt-Jakob, em que a morte celular é antecipada, a origem do problema seria a mesma: o enovelamento anormal de uma proteína. Pode parecer uma causa sutil demais para estragos tão grandes. Mas, acreditam os pesquisadores, faz sentido. Afinal, é a estrutura tridimensional dessas moléculas grandes e complexas, fundamentais para definir a estrutura e o funcionamento das células, que determina o papel que vão desempenhar. Quando o enovelamento dá errado, as proteínas em geral deixam de funcionar como deveriam e até ganham funções extras. A diferença entre os casos de câncer e os de Creutzfeldt-Jakob estaria na proteína afetada.


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sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Perda e ganho de material genético desafiam o uso dessas células tronco em terapia



Em um artigo publicado este mês na revista Frontiers in Cellular Neuroscience, o neurocientista Stevens Rehen e sua equipe no Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) chamam a atenção para um fenômeno que atinge com frequência as células-tronco e que deve exigir cautela no uso dessas células tanto em pesquisas como em potenciais terapias. Esse fenômeno é a aneuploidia: a perda ou o ganho de cromossomos, os filamentos espiralados de DNA que abrigam os genes.

Rehen, a biomédica Rafaela Sartore e a bióloga Sylvie Devalle analisaram cerca de 160 estudos publicados nos últimos anos e observaram que a variação no número de cromossomos atinge diferentes linhagens de células-tronco cultivadas nos laboratórios ao redor do mundo. “Embora também ocorra em organismos vivos e saudáveis, a aneuploidia observada nas células em cultura não enfrenta a pressão seletiva de mecanismos que as eliminem”, comenta Rehen, coordenador do Laboratório Nacional de Células-tronco Embrionárias (LaNCE) da UFRJ.

“Precisamos identificar o grau de aneuploidia tolerável, com o qual o organismo consiga lidar sem que surjam efeitos nocivos”, conta Rafaela, uma das pesquisadoras do LaNCE.

Depois que Rehen identificou a aneuploidia no cérebro de roedores e humanos saudáveis, respectivamente em 2001 e em 2005, ela já foi observada em outros tecidos do corpo. Aparentemente é uma falha na divisão celular comum em órgãos que passam por fases aceleradas de desenvolvimento, como o cérebro – seja o dos roedores, seja o humano. Estudando o desenvolvimento neuronal durante um estágio na Universidade da Califórnia em San Diego, nos Estados Unidos, Rehen observou que um terço das células do cérebro em formação tinha quantidade de DNA diferente da esperada. Também verificou que o organismo, à medida que amadurece, se encarrega de eliminar as células aneuploides, cujo índice que diminuía para cerca de 10% no cérebro adulto. Em estudo publicado em 2011, Rehen e Rafaela comprovaram que a aneuploidia surge durante a fase de especialização (diferenciação), em que as células-tronco progenitoras das células cerebrais se dividem para originar neurônios e células da glia.

“É preciso ficar alerta para esse fenômeno quando se pensam no desenvolvimento de tratamentos e na elaboração de modelos experimentais baseados células-tronco”, afirma Rehen. “Queremos descobrir, por exemplo, se as células-tronco obtidas pela reprogramação de células retiradas da pele de pessoas com esquizofrenia originariam neurônios com as mesmas formas de aneuploidia encontradas nos cérebros dessas pessoas”, conta Rafaela.